Biografia da Nenen Paiva

Maria Felizarda de Paiva Monteiro, conhecida como Nenên Paiva, era filha de Matheus Paiva, um importante fazendeiro da região, dono da Fazenda Primavera. Matheus Paiva foi escriturário dos livros da Capela São João Batista e secretário da “Fábrica da Capela” ou “fabriqueiro” desde 1909, como eram chamados os membros da comissão que arrecadavam aforamentos em atraso ou doações para a reforma e construção do segundo templo, como também para as despesas do culto divino.

Maria Felizarda casou-se com Ozório Ribeiro da Silva, outro tradicional morador do vilarejo. Ozório era irmão de José Ribeiro da Silva, um dos sócios de “A Social”. Nenên e Ozório moraram inicialmente à Rua Jerônimo Monteiro, depois da ponte, em uma chácara mais adiante do local onde hoje está o CEM no bairro “Sabiá”. Algumas moradoras atuais (Maria da Penha Raia Caldeira, Romanita Nogueira da Silva e Ana Fraga) confirmaram este dado, pois chegaram a ir brincar com Terezinha, filha adotiva de Da. Nenên, quando a chácara ainda servia de residência para a família. Esta chácara, muito bem instalada, foi parte alugada para uma pensão proibida para as moças de família, que para esta direção nem podiam virar os olhos.

Em 26 de fevereiro de 1926 o casal mudou-se após adquirir o imóvel de esquina à Rua Vieira Machado com a Rua Jerônimo Monteiro, do lado contrário à Sempre Viva, de Salvador Ribeiro Gomes e sua mulher Dalila Ribeiro da Silva, parentes de Ozório. Moraram na casa posterior às portas comerciais à Rua Vieira Machado, sendo que desde 1923 constam registros de pagamentos de taxas, tabelas e adicionais para a Prefeitura no nome de Ozório, pois ali já devia desenvolver algum comércio antes mesmo de oficializarem a compra do imóvel.

Nesta casa Nenên passou a dar aulas de piano. Ketty Cirillo e Ana Fraga recordam-se de que ao redor de 1934 ali tiveram aulas de música com a Profa. Nenên e que a sala do piano tinha sua janela virada à calçada da Rua Jerônimo Monteiro, logo que dobravam a esquina, ao passar por uma bela loja que lhes chamava a atenção: a loja “À Luiz XV”. Ketty recorda-se do brilho dos cristais que luziam à luz do sol, encantando as crianças que se hipnotizavam frente às elegantes vitrines.

Confirmando este registro, Ana Fraga e Jaime Mendes no dia 15 de fevereiro de 2009 disseram que a loja “À Luiz XV” foi inaugurada inicialmente em 1930 no antigo prédio da Câmara (atual Bar Vitória) cujo anúncio se pode ver em o “Muquyense”. Mais tarde esta loja mudou-se para o imóvel de Nenên Paiva.

Ali eram vendidos chapéus de sol, meias de seda e perfumes finos, além de cristais. Por uma nota fiscal de 1937 encontrada nos livros-caixa da reforma da Matriz, a loja passara a vender também outros tipos de mercadoria como pregos, tanto é que Maria Penha Raia lembra-se que ali eram vendidas miudezas, tecidos, fitas, pentes, escovas, etc. Na ala comercial do imóvel de Nenên também funcionou a sapataria de Wolfango Ferreira, a “Casa Wolf”.

Nenên Paiva era professora de música e dava aulas no Grupo Escolar Marcondes de Souza e para os componentes da Banda Euterpe, conhecida por “philarmonica local”, que se apresentava desde 1913 (encontram-se referências já antes de 1913), sob a direção do maestro Manoel Vicente Castro. Em 1915 Nenên Paiva providenciou um concerto musical no salão-nobre da Câmara (atual Bar Vitória) para que a verba fosse dirigida para obras da segunda Igreja, inaugurada em 1916.

Mais tarde em 1917, a Banda Euterpe transformou-se em Sociedade Euterpe, quando foi contratado o regente, Prof. Benedicto Trancreto, com quem Da. Nenên ensaiava os músicos.

Manoel Antônio Alves, primeiro proprietário em 1925 da casa onde funcionará o Museu Dr. Dirceu Cardoso, Muqui e sua História aparece como importante incentivador da Banda Sociedade Euterpe, vindo a ser seu vice-presidente e também presidente honorário em 1931. Manoel foi o responsável quando da incorporação da Banda Sociedade Euterpe à Sociedade de Tiro 419.

A Câmara Municipal, quando instituída em 1912, instalou-se em uma casa à antiga ponte, próxima à Rua das Palmeiras, até que uma casa térrea foi reformada em 1914 transformando-se na segunda sede da Câmara Municipal (atual Bar Vitória). Este prédio porém teve que ser vendido em 1926 pela Municipalidade para resgate de uma dívida flutuante com o Governo Estadual.

Com isso, a Prefeitura mudou-se para uma escolinha no Jardim Municipal, de frente para os trilhos, próxima à “Sempre Viva”, ao assinar um contrato de arrendamento, de 1930 a 1934, com o marido de Da. Nenên, em outro prédio de sua propriedade, também à praça (atual casa da família Maria José Ribeiro ou “Casa da Preta”) porque seria iniciada a segunda grande reforma no Jardim e a antiga escola seria demolida.

Este prédio foi o quarto local para onde a Prefeitura se deslocou ocupando o andar térreo, enquanto os Correios e Telégrafos ocuparam o segundo piso. Sabe-se que a primeira Agência Telegráfica foi instalada na vila em 1929.

Embora não se encontraram renovações de contrato, ali permaneceu a Prefeitura, enquanto reformava o Hotel Glória até 1939, local para onde se transferiu e permanece até hoje. Só depois de terminar este arrendamento com a Prefeitura, Da. Nenên mudou-se para sua casa no Jardim. A Banda Sociedade Euterpe ensaiava com ela no térreo deste sobrado.

Nenên Paiva anos depois fez deste prédio uma pensão, onde por coincidência Ketty Cirillo e sua família também moraram temporariamente quando de mudança para São Paulo em 1944. Da. Nenên também morou na atual casa de Da. Olívia Cabral.

Em 1952 Ozório, marido de Da. Nenên, foi presidente do Diretório do PTB em Muqui, mas mudaram-se em seguida para o Rio de Janeiro, após vender a esquina para Maria Oliveira Rocha em 17 de abril do mesmo ano. Soube-se por amigos, que anos mais tarde visitaram Da. Nenên no Rio de Janeiro, morando na própria pensão que abrira na cidade, que havia amputado as duas pernas e mesmo assim não tirara o sorriso do rosto.

O teatro da cidade carrega o nome de Nenên Paiva, no térreo da Escola de Música que tomou o nome do primeiro maestro, Manoel Vicente Castro. Em 1935 foi eleita Vereadora pelo P.S.D. (Partido Social Democrático), a primeira representante feminina no Brasil em uma Câmara do Estado do Espírito Santo, além de ter ocupado o cargo de Presidente da Câmara em 1937, sendo que sua foto está na galeria do salão-nobre ao lado das fotos dos Presidentes da Câmara até a atualidade.